Rodrigo Oliveira
1. Introdução ao Debate
O debate entre pré-tribulacionismo e pós-tribulacionismo permanece como uma das discussões mais relevantes dentro da escatologia evangélica contemporânea. Um dos textos centrais dessa controvérsia é Apocalipse 3.10, onde Cristo promete à igreja de Filadélfia:
“Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra.”
A discussão gira em torno da expressão “guardarei da hora” e do uso da preposição grega ἐκ (ek). Além disso, opositores da posição pré-tribulacionista argumentam que o simbolismo judaico presente em Apocalipse 1–3 (como os candeeiros) indicaria que a Igreja está inserida na mesma esfera escatológica de Israel, participando da Grande Tribulação.
Este artigo propõe uma análise exegética, lexical e estrutural do texto, defendendo que Apocalipse 3.10 é coerente com uma leitura pré-tribulacionista, dentro de uma hermenêutica histórico-gramatical consistente.
2. Análise Lexical da Preposição ἐκ
A promessa de Cristo utiliza a construção:
τηρήσω ἐκ τῆς ὥρας τοῦ πειρασμοῦ
tērēsō ek tēs hōras tou peirasmou
A preposição ἐκ possui, conforme os principais léxicos gregos, o sentido básico de “para fora de”, “desde dentro de”, indicando separação ou remoção de uma esfera.
2.1 ἐκ segundo os léxicos
Conforme Bauer, Danker, Arndt e Gingrich (BDAG), ἐκ indica:
• separação de origem;
• movimento para fora de uma esfera;
• remoção de dentro de uma condição.
Louw-Nida classifica ἐκ como termo que expressa “separação ou remoção de dentro de um espaço ou estado”.
Logo, semanticamente, ἐκ não é neutra. Ela carrega a ideia de saída ou exclusão de uma esfera.
3. Defesa Exegética de Apocalipse 3.10
A promessa não é simplesmente guardar da provação, mas guardar da hora da provação.
3.1 A palavra “hora” (ὥρα)
BDAG reconhece que ὥρα pode indicar:
• momento decisivo;
• período determinado;
• evento escatológico.
O texto afirma que essa hora:
“há de vir sobre o mundo inteiro” (ἐπὶ τῆς οἰκουμένης ὅλης)
Trata-se, portanto, de um período global, não de perseguição local romana.
3.2 A palavra “provação” (πειρασμός)
O termo pode significar teste, provação ou tribulação severa. Em contexto apocalíptico, assume caráter judicial.
Assim, a promessa é de preservação da participação na hora escatológica global.
Se João quisesse expressar preservação dentro da tribulação, seria natural o uso de ἐν (“em”) ou διά (“através de”). O uso de ἐκ sugere preservação fora da esfera temporal da provação.
4. A Questão dos Candeeiros em Apocalipse 1–3
Um argumento pós-tribulacionista sustenta que, como as igrejas são chamadas de “candeeiros”, elemento associado à menorá judaica, isso indicaria identidade escatológica com Israel.
Contudo:
1. João utiliza o termo grego λύχνος (candeeiro), não o termo técnico hebraico menorá.
2. Não há um único candelabro de sete braços, mas sete candeeiros distintos.
3. O próprio texto interpreta o símbolo: “os candeeiros são as sete igrejas”.
O símbolo enfatiza função (luz no mundo), não identidade nacional.
O Novo Testamento frequentemente aplica linguagem veterotestamentária à Igreja (cf. 1Pe 2.9), sem dissolver distinções escatológicas.
5. Estrutura Literária do Apocalipse
A estrutura do livro revela um padrão relevante:
• Capítulos 1–3: as igrejas
• Capítulo 4: “Depois destas coisas” (μετὰ ταῦτα)
• Capítulos 6–18: juízos da Tribulação
A palavra ἐκκλησία aparece repetidamente nos capítulos 1–3 e desaparece na seção dos juízos.
Quando João deseja referir-se à Igreja, ele o faz explicitamente. O silêncio terminológico nos capítulos centrais é significativo.
Além disso, Israel reaparece distintamente:
• 144.000 das tribos (Ap 7)
• A mulher de Ap 12 (paralelo com Gn 37)
• As tribos na Nova Jerusalém (Ap 21)
O próprio livro mantém distinção estrutural entre Israel e Igreja.
6. Distinção Israel × Igreja
Uma hermenêutica histórico-gramatical consistente reconhece:
• Israel possui promessas nacionais e territoriais;
• A Igreja é corpo de Cristo, mistério revelado no Novo Testamento;
• A Tribulação tem caráter de juízo divino e restauração de Israel (cf. Jr 30.7).
A mulher de Apocalipse 12, que dá à luz o Messias e foge ao deserto, corresponde ao Israel histórico-redentivo.
A Igreja nunca é chamada de mulher que gera o Messias.
A distinção não implica separação soteriológica, mas distinção funcional no plano escatológico.
7. Por Que o Livro é Endereçado às Igrejas?
Receber revelação não implica ser objeto direto do juízo.
Profetas do Antigo Testamento anunciaram juízos sobre nações que não eram Israel, mas Israel recebeu a revelação.
Apocalipse é profecia para:
• consolar,
• exortar,
• advertir,
• produzir perseverança.
A Igreja precisa conhecer o juízo vindouro, mesmo que não participe dele.
8. Conclusão Teológica
A análise lexical de ἐκ, a construção τηρέω ἐκ, o objeto temporal “hora”, o caráter global da provação e a estrutura literária do Apocalipse fornecem base plausível para uma leitura pré-tribulacionista.
O uso de simbolismo judaico nos capítulos iniciais não dissolve distinções escatológicas mantidas no próprio livro.
A promessa de Apocalipse 3.10, dentro de uma hermenêutica histórico-gramatical, pode ser legitimamente compreendida como preservação da participação na hora escatológica global.
A discussão deve permanecer no campo exegético, não retórico. A posição pré-tribulacionista não é fruto de desconhecimento interpretativo, mas de uma leitura coerente dos dados textuais.
Pastor Rodrigo Oliveira. Teólogo; Pedagogo; Pós-graduado em Filosofia; Pós-graduado em Docência do Ensino Superior; Mestre em Escatologia Bíblica, Doutor em Teologia Sistemática. Professor nas disciplinas de Hermenêutica e Exegese Bíblica; Escatologia Bíblica entre outras.
Referências Bibliográficas (em Português)
BEALE, G. K. Apocalipse – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova.
CARSON, D. A.; MOO, Douglas J. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova.
LOPES, Hernandes Dias. Apocalipse: O Futuro Chegou. São Paulo: Hagnos.
MACARTHUR, John. Apocalipse – Comentário Bíblico. São Paulo: Cultura Cristã.
PENTECOST, J. Dwight. Eventos Futuros. São Paulo: Vida.
TENNEY, Merrill C. Interpretação do Novo Testamento. São Paulo: Vida.
WALVOORD, John F. Apocalipse: Comentário Expositivo. São Paulo: Vida
