terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

GUARDADOS DA HORA DA PROVAÇÃO?


Uma Defesa Exegética de Apocalipse 3.10 e a Distinção entre Igreja e Israel no Debate Pré-Tribulacionista

Rodrigo Oliveira

1. Introdução ao Debate

O debate entre pré-tribulacionismo e pós-tribulacionismo permanece como uma das discussões mais relevantes dentro da escatologia evangélica contemporânea. Um dos textos centrais dessa controvérsia é Apocalipse 3.10, onde Cristo promete à igreja de Filadélfia:

“Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra.”

A discussão gira em torno da expressão “guardarei da hora” e do uso da preposição grega ἐκ (ek). Além disso, opositores da posição pré-tribulacionista argumentam que o simbolismo judaico presente em Apocalipse 1–3 (como os candeeiros) indicaria que a Igreja está inserida na mesma esfera escatológica de Israel, participando da Grande Tribulação.

Este artigo propõe uma análise exegética, lexical e estrutural do texto, defendendo que Apocalipse 3.10 é coerente com uma leitura pré-tribulacionista, dentro de uma hermenêutica histórico-gramatical consistente.

2. Análise Lexical da Preposição ἐκ

A promessa de Cristo utiliza a construção:

τηρήσω ἐκ τῆς ὥρας τοῦ πειρασμοῦ

tērēsō ek tēs hōras tou peirasmou

A preposição ἐκ possui, conforme os principais léxicos gregos, o sentido básico de “para fora de”, “desde dentro de”, indicando separação ou remoção de uma esfera.

2.1 ἐκ segundo os léxicos

Conforme Bauer, Danker, Arndt e Gingrich (BDAG), ἐκ indica:

separação de origem;

movimento para fora de uma esfera;

remoção de dentro de uma condição.

Louw-Nida classifica ἐκ como termo que expressa “separação ou remoção de dentro de um espaço ou estado”.

Logo, semanticamente, ἐκ não é neutra. Ela carrega a ideia de saída ou exclusão de uma esfera.

3. Defesa Exegética de Apocalipse 3.10

A promessa não é simplesmente guardar da provação, mas guardar da hora da provação.

3.1 A palavra “hora” (ὥρα)

BDAG reconhece que ὥρα pode indicar:

momento decisivo;

período determinado;

evento escatológico.

O texto afirma que essa hora:

“há de vir sobre o mundo inteiro” (ἐπὶ τῆς οἰκουμένης ὅλης)

Trata-se, portanto, de um período global, não de perseguição local romana.

3.2 A palavra “provação” (πειρασμός)

O termo pode significar teste, provação ou tribulação severa. Em contexto apocalíptico, assume caráter judicial.

Assim, a promessa é de preservação da participação na hora escatológica global.

Se João quisesse expressar preservação dentro da tribulação, seria natural o uso de ἐν (“em”) ou διά (“através de”). O uso de ἐκ sugere preservação fora da esfera temporal da provação.

4. A Questão dos Candeeiros em Apocalipse 1–3

Um argumento pós-tribulacionista sustenta que, como as igrejas são chamadas de “candeeiros”, elemento associado à menorá judaica, isso indicaria identidade escatológica com Israel.

Contudo:

1. João utiliza o termo grego λύχνος (candeeiro), não o termo técnico hebraico menorá.

2. Não há um único candelabro de sete braços, mas sete candeeiros distintos.

3. O próprio texto interpreta o símbolo: “os candeeiros são as sete igrejas”.

O símbolo enfatiza função (luz no mundo), não identidade nacional.

O Novo Testamento frequentemente aplica linguagem veterotestamentária à Igreja (cf. 1Pe 2.9), sem dissolver distinções escatológicas.

5. Estrutura Literária do Apocalipse

A estrutura do livro revela um padrão relevante:

Capítulos 1–3: as igrejas

Capítulo 4: “Depois destas coisas” (μετὰ ταῦτα)

Capítulos 6–18: juízos da Tribulação

A palavra ἐκκλησία aparece repetidamente nos capítulos 1–3 e desaparece na seção dos juízos.

Quando João deseja referir-se à Igreja, ele o faz explicitamente. O silêncio terminológico nos capítulos centrais é significativo.

Além disso, Israel reaparece distintamente:

144.000 das tribos (Ap 7)

A mulher de Ap 12 (paralelo com Gn 37)

As tribos na Nova Jerusalém (Ap 21)

O próprio livro mantém distinção estrutural entre Israel e Igreja.

6. Distinção Israel × Igreja

Uma hermenêutica histórico-gramatical consistente reconhece:

Israel possui promessas nacionais e territoriais;

A Igreja é corpo de Cristo, mistério revelado no Novo Testamento;

A Tribulação tem caráter de juízo divino e restauração de Israel (cf. Jr 30.7).

A mulher de Apocalipse 12, que dá à luz o Messias e foge ao deserto, corresponde ao Israel histórico-redentivo.

A Igreja nunca é chamada de mulher que gera o Messias.

A distinção não implica separação soteriológica, mas distinção funcional no plano escatológico.

7. Por Que o Livro é Endereçado às Igrejas?

Receber revelação não implica ser objeto direto do juízo.

Profetas do Antigo Testamento anunciaram juízos sobre nações que não eram Israel, mas Israel recebeu a revelação.

Apocalipse é profecia para:

consolar,

exortar,

advertir,

produzir perseverança.

A Igreja precisa conhecer o juízo vindouro, mesmo que não participe dele.

8. Conclusão Teológica

A análise lexical de ἐκ, a construção τηρέω ἐκ, o objeto temporal “hora”, o caráter global da provação e a estrutura literária do Apocalipse fornecem base plausível para uma leitura pré-tribulacionista.

O uso de simbolismo judaico nos capítulos iniciais não dissolve distinções escatológicas mantidas no próprio livro.

A promessa de Apocalipse 3.10, dentro de uma hermenêutica histórico-gramatical, pode ser legitimamente compreendida como preservação da participação na hora escatológica global.

A discussão deve permanecer no campo exegético, não retórico. A posição pré-tribulacionista não é fruto de desconhecimento interpretativo, mas de uma leitura coerente dos dados textuais.


Pastor Rodrigo Oliveira. Teólogo; Pedagogo; Pós-graduado em Filosofia; Pós-graduado em Docência do Ensino Superior; Mestre em Escatologia Bíblica, Doutor em Teologia Sistemática. Professor nas disciplinas de Hermenêutica e Exegese Bíblica; Escatologia Bíblica entre outras.


Referências Bibliográficas (em Português)

BEALE, G. K. Apocalipse – Comentário do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova.

CARSON, D. A.; MOO, Douglas J. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova.

LOPES, Hernandes Dias. Apocalipse: O Futuro Chegou. São Paulo: Hagnos.

MACARTHUR, John. Apocalipse – Comentário Bíblico. São Paulo: Cultura Cristã.

PENTECOST, J. Dwight. Eventos Futuros. São Paulo: Vida.

TENNEY, Merrill C. Interpretação do Novo Testamento. São Paulo: Vida.

WALVOORD, John F. Apocalipse: Comentário Expositivo. São Paulo: Vida

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